Arte Indesejável

Em primeiro lugar: tenho consciência de que eu, ao existir como um ser humano não-cis, não-hétero, com transtornos mentais e fora dos padrões de beleza, sou um ato político. Meu corpo é um ato político, minha sexualidade é um ato político, meu gênero é um ato político. Eu não queria que fosse assim, mas não é uma pessoa que vai mudar isso – e que vai mudar só por eu querer. Em segundo lugar: eu não costumo falar de política. Eu nem acompanho os noticiários diretamente, porque sei que isso vai prejudicar a minha já frágil saúde mental. Eu me mantenho distante do mundo ao ponto de ter esquecido de analisar o tal contexto histórico das obras que estudei para o meu TCC na faculdade. Eu não vivo nesta realidade.

Mas eu preciso aprender a viver.

Toda vez que eu coloco um pé para fora de mim e do meu mundo interior, eu levo uma bofetada na cara. Seja por ser tratado pelos nomes e pronomes errados, seja por pessoas presumindo minha sexualidade, seja pela maneira em que faço minha arte. E eu nem mencionei o estigma contra meu transtorno mental. Aqui, neste artigo, eu vou falar de arte. Mais especificamente, como o tipo de arte que eu – e meus amigos, colegas e conhecidos – faço é tão invisível, "apagada" e desprezada no contexto do capitalismo atual. Mas não esperem algo profundo ou digno de reflexão: eu não me embasei em nenhum texto para escrever este artigo, ele foi alimentado apenas pela minha raiva.

O artista sempre dependeu do outro para viver. Seja de um patrocinador, de um crítico, leitor ou expectador — palavra melhor: consumidor. Nós não podemos fazer a arte apenas por nós mesmos, porque sem visibilidade a arte não tem sentido – e sem dinheiro, infelizmente, não se vive. Aqui eu poderia contar uma breve história sobre os patrocínios da Antiguidade até a Renascença, mas não é o foco deste artigo-desabafo-ensaio. Eu quero avançar e falar sobre a arte e o capitalismo contemporâneo – mais especificamente: sobre literatura e seu consumo no Brasil.

Digo "consumo" porque a arte passou a ser isto: um objeto de consumo. Sendo assim, como tudo no capitalismo, a arte precisa agradar alguém, e para que isso aconteça, os "indesejáveis" precisam ser jogados de lado – pessoas negras, queers, fora do padrão. Aqui alguém poderia argumentar que atualmente existe visibilidade de pessoas que se encaixam nessas categorias na arte. Sim, concordo. Até Vingadores: Ultimato teve seu momento gay. Mas visibilidade não é o bastante.

Eu já fui representante dessa causa: mais personagens queers, vida melhor para pessoas queers. Eu aplaudia qualquer representação que fosse, e se fosse pouco problemática, era melhor ainda. Não me importava quem escrevesse tal representação, apenas que ela existia. Então minha estante estava ali, cheia de John Greens, e minha televisão cheia de Steven Moffats, e minha caixa de DVDs cheia de irmãos Russo. Homens brancos, cis, heterossexuais.

"Mas muitos autores queers têm vozes hoje em dia", você poderia dizer. Sim, concordo com isso também. Mas você já parou para ler que tipo de coisa essas pessoas escrevem? O quão inofensiva é a vivência das personagens deles? E quão fora de realidade isso é?

O exemplo mais recente de representação queer que eu consumi foi "A Cinco Passos de Você" (filme, 2019). Poe, o personagem gay da história, é tratado como alívio cômico e tem um claro papel de "melhor amigo gay". A história dele não é nem um pouco explorada, ele está ali de muleta para que o casal hétero fique junto, e no final das contas ele ainda morre. Ele não lida com o mundo real, a homofobia e a pressão crescente de ser um cidadão modelo dentro da sociedade. Ele está ali. Fim.

Eu não quero isso mais.

Eu não quero que pessoas hétero, cis, de mentes saudáveis e corpos magros escrevam sobre gente como eu.

Eu quero meus queers presentes, quero meus queers políticos, quero meus queers com identidades mirabolantes, desafiando todas as normas sociais. Eu quero meus queers lidando com o ódio e as microagressões de cada dia. E eu quero autores queers escrevendo isso. Sem John Green. Sem Steven Moffat. Sem "o gay que está ali." Eu quero um queer que exista.

Mas onde eu encontro isso? Onde eu encontro uma obra com protagonismo queer de substância se as editoras estão preocupadas em publicar apenas romance hétero ou best-sellers internacionais que se passam por obras "cultas" aqui?

Eu não encontro, porque eu quero o indesejável. E eu posso até fazer minha obra com o protagonismo que quero, mas ela não vai ser publicada por uma editora se eu não dosar o conteúdo dela. Resta, então, a autopublicação, e, assim, ser visto como um autor "fracassado" que não conseguiu um contrato com uma editora e teve que apelar para a Amazon KDP.

"Mas e os autores queers e/ou negros que têm visibilidade no Brasil?", você perguntaria. E eu digo: quase nenhum deles são brasileiros. Eles só são grandes nomes aqui porque são grandes nomes no exterior. Eu devo ser a quinquagésima pessoa dizendo isso, mas as editoras nacionais não têm interesse por literatura brasileira que conte da vida como ela é. Elas têm interesse por aquilo que vende, e aquilo que vende é sempre hétero, cis, branco e de um mundo cor pastel. Não existe vermelho sangue nessas obras.

Como contornar isso? Tomem os meios de publicação. A revolução está na arte.

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